Multitud textual

Futebol e Literatura – a máquina de fazer espanhois

Publicado em Sem categoria por iurimuller em 5 de abril de 2012

01.10.2011

“a chuva, senhor silva, disse-me o outro homem, não lhe pode trazer a dona laura de volta. mas posso dizer-lhe eu que muito bela há de ser a alma de quem parte no momento em que o amado expõe o seu amor desta maneira.”

valter hugo mãe, “a máquina de fazer espanhóis”

A primeira coisa a ser dita sobre valter hugo mãe é que escreve em minúsculas e que as menções aos trechos dos seus livros, portanto, não conservam qualquer erro de digitação. Trata-se de uma forma encontrada pelo escritor angolano para acelerar a leitura. valter lançou na última Festa Literária Internacional de Parati, a Flip, o seu segundo romance publicado no Brasil, a máquina de fazer espanhóis. Mais do que isso, protagonizou, possivelmente, um dos momentos mais emocionantes do evento. Após a sua palestra, o escritor leu uma carta em que descrevia a sua relação com o Brasil. Escreveu que os brasileiros que conheceu na infância transformaram a vila onde morava. Que um amigo brasileiro ensinou-o a perder parte da vergonha, porque os portugueses sempre foram meio envergonhados. Que o fato de vir ao Brasil como escritor, publicado e recebido, fazia dele um homem de ouro. Deixou Parati com lágrimas nos olhos – nos seus e nos da plateia.

Na máquina de fazer espanhois, o narrador é antónio jorge da silva, um barbeiro aposentado com o sobrenome mais comum do país que, depois de tornar-se viúvo na velhice, acaba por viver em um asilo, o lar da feliz idade. Nos primeiros tempos no local, para silva, mais forte do que tudo é a dor que entristece os seus últimos anos e a não aceitação do ver-se sozinho – “com a morte, tudo o que respeita a quem morreu deveria ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder”. Entre reflexões sobre um Portugal que caminha para ser europeu e de como a recente história política do país interferiu mesmo na vida do menos politizado dos portugueses, o que parece mais saltar das páginas de a máquina de fazer espanhóis ainda é o desconsolo de antónio – “naqueles primeiros tempos eu não me acalmava com coisa alguma. ficava maligno por dentro a embater contra as paredes do meu cérebro. algo me impedia de reagir, uma qualquer, a memória da elegância da laura, o delicado toque da sua mão no meu cabelo como a dizer-me, antónio, tem calma, isto vai resolver-se”.

antónio só encontra certa vontade através do convívio com outros moradores do asilo – alguns, personagens reais, como anísio franco, conservador do Museu de Arte Antiga de Lisboa; outros, quase, ou ao menos muito reais na literatura, como o esteves sem metafísica da “Tabacaria” de Fernando Pessoa. Das companhias, surgem as conversas sobre o futebol nacional, a religião e o salazarismo – a partir de uma “aparição” de Teófilo Cubillas no lar da feliz idade. Utilizando elementos do romance “Longe de Manaus”, do escritor português Francisco José Viegas, valter hugo mãe transporta uma cena daquele livro para o asilo – a dos policiais Jaime Ramos e Islatino de Jesus em frente ao pôster de Cubillas, um dos maiores jogadores peruanos de todos os tempos e que, na Europa, defendeu a camiseta do Porto.

valter justifica o episódio em uma entrevista para o site da União dos Escritores Angolanos: “foi a minha oportunidade de usar maiúsculas. E formatei aquele texto: aquilo é roubado ao livro Longe de Manaus. E eles são de Valongo (cidade do Distrito do Porto), dá para eu me meter com o Benfica. Eu só vejo futebol por razões patrióticas. É preciso ver que este livro tem Salazar, Deus, família e o futebol. Provocações que têm a ver com o lado divertido dos dogmas.” No romance, Teófilo Cubillas está imortalizado em um pôster do quarto de Dona Leopoldina, uma das moradoras do asilo, com quem o jogador se relacionou já no ocaso do salazarismo: “a dona Leopoldina sorria porque se lembrava do dia 8 de março de 1974, quando chegava a casa numa noite já tarde, e um homem num carro bonito passou tão perto. [...] Teófilo Cubillas subiu com a solitária mulher as escadas estreitas de uma casa grande. Passou ali umas horas em que, além do sexo, lhe falou num português esquisito sobre como era vir do Peru para um país chamado Portugal sem que nenhum dos dois suspeitasse o fim da ditadura por ali tão perto.”

Mesmo que Cubillas defendesse o azul e o branco do Porto, era o Benfica – com ou sem relação direta com a política vigente na época – o grande clube português do salazarismo, regime autoritário que esteve à frente do governo de Portugal durante quarenta e um anos seguidos. Os argumentos dos portistas que acusam a ligação se valem da enorme diferença de títulos entre as equipes durante e após o salazarismo – das trinta e duas conquistas do Campeonato Português pelo Benfica, vinte e uma se deram entre 1933 a 1974, ou seja, durante o regime. Já o Porto ergueu vinte dos seus vinte e cinco campeonatos após a queda de Salazar e é, de longe, a equipe mais vitoriosa do país nas últimas duas décadas. A mesma disparidade se dá quando da análise do desempenho de Porto e Benfica na maior competição do continente, a Liga dos Campeões da Europa. A equipe de Lisboa venceu a Liga em 1960/61 e 1961/62, época em que o moçambicano Eusébio chega ao clube, enquanto que o Porto venceu a competição muitos anos depois, em 1986/87 e em 2003/04.

A defesa benfiquista é enérgica: como Salazar poderia apoiar e beneficiar um clube que, primeiramente, vestia vermelho, justamente a cor da esquerda, da União Soviética? Para os torcedores indignados com a versão portista, o verdadeiro patrocinado pelo regime seria, na verdade, não o Benfica, mas talvez o Sporting, o clube mais vencedor na fase em que o regime se mostrava mais forte. Há, também, menções ao fato do hino do Benfica ter sido censurado durante o salazarismo e dos presidentes do clube serem, na época, em sua maioria homens de oposição. antónio, o da máquina de fazer espanhóis, diverge: “ainda hoje ouço os velhos comentarem que o paizinho fez tudo para que o benfica personificasse a glória da nação. era como ter um exército do desporto, uma seleção (…) depois do erro que fora esperar do sporting tal coisa. e todas as pessoas passaram a ser benfiquistas encurralados, o que significava que eram benfiquistas porque a oposição já não era nenhuma e todos queriam adorar campeões, e era ver o entusiasmo do ditador com o futebol dos encarnados. um futebol do eusébio, todo nosso, maravilhosa pantera do caraças a correr para o mérito dos portugueses.”

Mas a máquina de fazer espanhóis não é um livro sobre a rivalidade no futebol português, ou sobre os possíveis privilégios que o Benfica encontrou em Salazar – nem de longe. O que importa para valter hugo mãe é, quem sabe, o que antónio encontra nos seus anos de viúvo: os amigos que não haviam aparecido nos oitenta anos anteriores e uma consciência maior de como vê o seu país. Um Portugal que hoje se pretende europeu, mas que durante muito tempo sua gente era tida como “meio envergonhada”. Que por agora se descobre na democracia, mas que viveu décadas de um regime que “se nos metia pela pele adentro como um vírus. ficávamos sem reação, íamos pela vida abaixo como carneirada, tão bem enganados”. De um país que, de alguma forma, teve a história formada por benfiquistas e portistas, por Eusébio e Teófilo Cubillas.

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Futebol e Literatura – Meia encarnada, dura de sangue

Publicado em Sem categoria por iurimuller em 5 de abril de 2012

17.09.2011

“Então houve um segundo, um lampejo, em que apenas pelos olhos eles se entenderam: eram negros e miseráveis e sabiam que era assim que caminhavam, às avessas, contra o vento e frio, numa interminável procissão de corpos vergados e rostos escuros, um atrás do outro, campo fora, tendo como destino lugar nenhum.”

Lourenço Cazarré, “Meia encarnada, dura de sangue”

Um conto sobre o Bra-Pel, o negro no futebol gaúcho e um retrato do esporte no primeiro contato com o profissionalismo; ou apenas uma antiga história ouvida, ainda bruta, da boca do avô e que foi trabalhada para passar à literatura. “Meia encarnada, dura de sangue”, do escritor pelotense Lourenço Cazarré, talvez seja apenas um causo despretensioso do futebol da cidade, repassado para o neto sem a intenção de se transformar em palavra escrita – e, da mesma forma como a história chegou a Cazarré, ela se desenvolve no conto: “então o meu velho contou a história do crioulo. Ele tinha várias histórias de futebol porque ele mesmo havia sido um jogador, um ponta irritante, daqueles pequenos que são como flechas e que, por não terem nem altura nem força, se obrigam a ser mais velozes e mais matreiros e mais gambeteiros e mais debochados, para irritar os laterais”.

Pouco importa se o avô de Lourenço Cazarré se parece com o do Poeta, o nome do narrador do conto; se havia sido brigadiano e se havia passado tantos anos ao relento, sozinho, “seja em nossa cidade, seja nas cidadezinhas da redondeza, atravessando madrugadas frias, sem ter com quem trocar um só cumprimento” – solidão da qual herdou umas ganas enormes de conversar e de repartir histórias. A questão é que, como conta o próprio escritor, “Meia encarnada, dura de sangue” surgiu assim, por volta de 1985: “o conto nasceu de uma história que me foi contada pelo meu avô. Era uma historinha curta que eu recheei de detalhes”. Das palavras velozes do avô, fez-se o cenário: a Pelotas dos anos 1930, época em que o profissionalismo alcançava o futebol – até mesmo o do interior do Rio Grande do Sul, que ainda forjava equipes vencedoras, a maior parte delas na Zona Sul. E do cenário, o personagem: o crioulo que talvez tenha sido o primeiro a sentir diretamente as mudanças do sistema.

Sistema, inclusive, que alteraria de forma drástica a ordem nos gramados gaúchos; se na década de 1930, sete dos dez campeonatos estaduais foram vencidos por equipes do interior, a partir daí passaram-se quase sessenta anos sem que uma equipe de fora de Porto Alegre erguesse a taça. A estiagem inicia após a conquista do Rio-Grandense de Rio Grande, em 1939, e só tem fim com o título do Juventude, em 1998. A força do interior era visível – talvez até mais do que em qualquer outra cidade – em Pelotas; o Grêmio Esportivo Brasil conta com a glória de ter sido o primeiro campeão, ainda em 1919, quando derrotou o Grêmio por 5-1 na Baixada do Moinhos de Vento. O mesmo tricolor da capital acabou perdendo finais para o Esporte Clube Pelotas, em 1930, e para o Grêmio Atlético Farroupilha, então 9° Regimento de Infantaria, em 1935. Mas, como avisa Lourenço Cazarré no próprio conto, “voltemos ao rio, deixemos as vertentes”.

Porque algo daqueles tempos de ouro do futebol do interior se manteve até hoje – ao menos no imaginário: trata-se do contraste entre as torcidas e as ideias do Grêmio Esportivo Brasil e do Esporte Clube Pelotas. O último é tido como o clube dos brancos e dos ricos, dos “almofadinhas da Avenida”, como provocam os rivais; por sua vez, o Brasil seria o destino da paixão dos negros e pobres, dos habitantes das áreas alagadas e dos invisíveis da cidade que se encontram e se confundem a cada domingo no Estádio Bento Freitas – o que, para muitos áureo-cerúleos, é um discurso que parou no tempo. Seja como for, a oposição “popular” do Xavante aos “aristocratas” do Pelotas nunca seria uma regra, como opina Cazarré: “é uma simplificação. Não há explicação lógica para o fato de um menino começar a torcer por um uniforme azul ou vermelho.” Assim como não haveria qualquer explicação cabível para um negro que vivia dias de ídolo no Brasil rumar em direção à Avenida Bento Gonçalves e vestir a jaqueta amarela do Pelotas – antes do profissionalismo.

Grande nome do futebol da cidade até então, “o crioulo, aos dezenove-vinte anos, era o maior driblador e fazedor de gols da época. Nem alto nem baixo, era magro como a peste e leve como a brisa e dançarino como as borboletas. E frio. E jogava de olhos abertos, cabeça erguida.” Ainda que direcionasse as atenções futebolísticas da cidade aos campos da Estação-Ferroviária, onde o Brasil mandava os seus jogos, o crioulo, como era tão comum e necessário na época, se dividia entre o futebol e o trabalho. Se aos domingos deslizava sobre a grama, durante a semana ganhava os seus trocados em um matadouro perto do porto, formado por escuros galpões – “iluminados apenas pelo cintilo fugaz dos facões afiados – resvalando pelo chão ensangüentado.” Mesmo que criados por Cazarré, os dramas do crioulo só parecem ficcionais tantas décadas depois; e aquela faca não parava por um instante para, algum dia, dar certa dignidade ao “rancho de paredes vacilantes e teto de palha”, inviável no verão, quando as cheias do rio o faziam “botar os trastes nas costas e sair para a casa de uns parentes, que moravam nas Terras Altas”.

O conflito no conto se dá com o interesse do Pelotas, cuja camiseta nunca algum negro havia vestido, no futebol do gambeteador do Brasil, “depois de perder quatro ou cinco jogos, de enfiada”. A transferência, inédita na cidade, renderia ao jogador uma casa nova, residência cedida por um dos diretores do áureo-cerúleo. Demorou três meses para aceitar – “porque sabia que a partir do momento em que concordasse não seria apenas o crioulo: seria o crioulo vendido” – e o que decidiu a questão não foi tanto a casa nova, e muito menos o pioneirismo de ser o primeiro negro da história do Pelotas. “Por uma mulher, decidiu-se” – uma negrinha que trabalhava no centro da cidade, em uma casa de família. O crioulo deixava para trás a admiração de muitos dos seus para uma mudança, ainda abstrata, mas cheia de ilusão, que poderia lhe render uma até então inalcançável vida nova: “se ficasse no seu time do coração teria apenas os aplausos e os abraços de negros e mulatos tão pobres quanto ele, ou mais, num desses melancólicos finais de tarde de domingo, no inverno, que trazem consigo não só tristeza e neblina, mas também a desesperada perspectiva de mais uma semana de trabalho.”

Do desencanto nítido dos ex-companheiros e de enorme apreensão foram feitos os dias anteriores à estreia, justamente contra o Brasil; na véspera, um violento talho no pé foi o resultado de um facão guiado por mãos mais nervosas do que de costume. Que aquele domingo seria diferente de todos os outros o dia mostrou desde cedo – e as provas foram a entrada pelo portão de sócios do Esporte Clube Pelotas, o pudor em um vestiário feito de uma nudez predominantemente branca e a chuteira lustrada para enfrentar o ex-clube, instante em que se produz o encontro mencionado na epígrafe. O engraxate, um negrinho de “grandes olhos cheios de luz negra”, percebe e compreende tudo: a lesão, o desespero pela dita traição e a certeza de que havia algo muito maior – embora mais sutil – do que o Bra-Pel em jogo. Em campo, ocorreu o de sempre – o gol e a farra de quem, agora, exibia apenas outra camiseta. Lourenço Cazarré diz nunca ter sido um torcedor fanático – “torcia fleumaticamente pelo Brasil, mas sempre achei muito bonita a camisa do Farroupilha” – mas, a partir daquela “historinha curta”, contada pelo avô, talvez tenha ido mais fundo do que quase tudo que já foi escrito sobre o que já esteve em disputa nos gramados de outros tempos.

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Futebol e Literatura – O dia em que o Papa foi a Melo

Publicado em Sem categoria por iurimuller em 5 de abril de 2012

03.09.2011

“Foi uma pena, porque Melo era uma festa, antes da chegada do Papa. A gente notava nas caras das pessoas – nos gestos, nas atitudes – uma alegria sem necessidade de explicação, alguma coisa muito rica e muito viva que alguém chamaria equivocadamente de orgulho municipal ou de vaidade ufana, mas que era muito mais ou muito menos do que isso: era o júbilo dos deserdados, o regozijo dos esquecidos despertados repentinamente para um momento de confiança, para uma possibilidade de certeza.”

 Aldyr Garcia Schlee, “Melo era uma festa”

No dia oito de maio de 1988, um domingo de tempo feio, neblina e vento frio, a Negra Martiana, que não tinha nada, viu entrar pelo buraco do fogão duas galinhas e um galo, acontecimento estranho para quem vivia em um casebre, perto de terrenos baldios e de um arroio e muito longe de qualquer galinheiro. No dia oito de maio de 1988, o Papa João Paulo II esteve em Melo, na cidade do interior uruguaio onde vivia a Negra Martiana, mas ela não se lembra de ter pedido qualquer coisa ao Santo Padre. Ainda mais depois que os seus enteados percorreram meia cidade com bandeirolas e faixas brancas nos bolsos, todas elas com mensagens de boas-vindas ao Papa, e voltaram para casa sem ter vendido absolutamente nada. Mas ali estavam as duas galinhas e o galo, justamente na cozinha de quem não tinha nada, e logo no dia em que o Papa foi a Melo – dessa história, que pode ter acontecido em qualquer canto da capital do departamento de Cerro Largo, o escritor Aldyr Garcia Schlee fez um conto e o chamou, mesmo perguntando no rodapé da página se não seria muito, de “Milagre”.

Aldyr, nascido em 1934 na cidade de Jaguarão, na fronteira com o Uruguai, não esteve em Melo naquele dia; o Papa, sim. A ausência não impediu que três anos após a visita papal o escritor se fizesse presente, quase que magicamente, em todos os lados da cidadezinha que se preparou até como não podia para receber João Paulo II – em 1991, Schlee publicou “El día en que el Papa fue a Melo” nas Ediciones de La Banda Oriental. Oito anos mais tarde, o livro formado por dez contos cujo pano de fundo é sempre a presença – ou a enorme ausência – do Papa no interior uruguaio aparece no Brasil publicado pela editora Mercado Aberto com o título “O dia em que o Papa foi a Melo”. O “Milagre” que viveu a Negra Martiana, portanto, é só um dos causos de um dia que, por curioso ou trágico, não deve nunca escapar da memória de quem esteve em Melo naquele domingo. Tudo porque os uruguaios esperavam um público de ao menos cinquenta mil pessoas e a chegada de gigantescas caravanas de católicos brasileiros – e há quem diga que não mais do que oito mil pessoas, a maioria de Melo, de fato foram ver o Papa.

Entre os personagens de Aldyr, no conto “Espelho partido” está o avô que completava 98 anos no dia em que a cidade estava impactada pela chegada do maior visitante que já havia recebido – e que, apesar das centenas de parentes e conhecidos que se aglomeravam na “grande casa alta de dezoito peças”, prefere não sair da cama de onde contemplava há horas a rachadura de um velho espelho. Talvez relembrasse, em meio ao cansaço dos últimos anos de vida, as conquistas de “uma pobre e obscura republiquinha” que há tempos havia “suprimido o ensino religioso nas escolas públicas e logo se pôde diminuir para oito horas a jornada diária de trabalho, implantar as jubilaciones, criar as pensões de velhice, garantir a assistência pública e laica aos enfermos e assegurar a gratuidade da educação nos três níveis”. E que secularizou “os juramentos oficiais, deixando de mencionar Deus e os santos evangelhos”; que garantiu “a total liberdade de culto, separando a igreja do Estado – embora não tenhamos conseguido a aprovação da semana renga, com um dia de descanso a cada seis, para acabar com o feriado de domingo por sua significação religiosa”. E lá fora estava o Papa, orando para uma multidão que não chegou.

É no conto “Melo era uma festa”, narrado por um jornalista credenciado no evento, que se encontra uma descrição do desastre que foi a preparação dos habitantes de Melo para o grandioso acontecimento; embora ficcional, o texto de Aldyr não destoa de outros relatos sobre aquele domingo que, apenas para uns poucos, ainda é lembrado com alegria: “a verdade é que nada deu certo no dia em que o Papa foi a Melo – pelo menos para a pobre gente que mais esperava de sua visita. Foi tudo tão rápido e inesperado como um milagre, mas um milagre às avessas: quando se viu, o que se queria que acontecesse, o que tinha que acontecer, o que era certo que ia acontecer, não aconteceu; e em seguida não dava mais para acontecer. O Papa veio se foi; e pronto! Quando recém o leitãozinho de estimação começava a pingar graxa no braseiro, quando os primeiros chouriços caseiros pegaram a dourar e a estalar, o homem já tinha ido embora e todo mundo se foi – se foi sem almoçar nem nada –, e ficou só a terra vermelha e pisoteada da esplanada coberta de lixo barato”.

Vinte e três anos depois, não em maio, mas já nos últimos dias de agosto, Melo outra vez se preparou para grandes recepções e para atrair os olhares de toda a República Oriental; no entanto, agora os seus habitantes não se organizaram, com tendas e mesas improvisadas, no trajeto do Papa. Tampouco foram assadas toneladas de chorizos, calientitos, panchos e hamburguesas. Os forasteiros, desta vez, viriam não do Brasil, mas em sua maioria de Montevidéu, em ônibus que cortariam o interior do país com um fervor quase religioso. Mais de duas décadas depois, os melenses pintaram as arquibancadas, arrumaram as telas, reformaram os vestiários e as entradas do Estádio Municipal Arquitecto Ubilla. Pela primeira vez na história, o Cerro Largo, única equipe do interior uruguaio na primeira divisão, enfrentaria o Peñarol, atual vice-campeão da América, em Melo.

É evidente que comparar a importância dos dois eventos para a cidade seria uma enorme distorção. Mas o que aconteceu no último domingo em Melo, de certa forma, se relaciona e se aproxima com a fugaz aparição do Papa em 1988. Principalmente porque foram inúmeros os entraves para levar a cabo a realização da partida mais importante do ano para o Cerro Largo – algo que, por direito, deveria ser natural e acontecer a cada torneio. Há anos, o que se vê nas tabelas do futebol uruguaio é exatamente o contrário de uma possível integração entre Montevidéu e o interior – quando chega a esperada oportunidade das equipes de tierra adentro receberem os dois grandes do futebol uruguaio, Peñarol e Nacional, a partida inevitavelmente é remarcada para o Estádio Centenário, da capital. Por vezes, os interioranos se beneficiam com a renda da partida em um palco maior e não arcam com as rígidas adaptações exigidas pelos cartolas nos estádios das pequenas cidades. A consequência inevitável é um distanciamento das torcidas do interior do país com o futebol profissional; hoje, apenas o Cerro Largo resiste na elite uruguaia.

O enfrentamento entre Peñarol e Cerro Largo parecia terminar na mesma resignação; após inspeções do Ministério do Interior no estádio Arquitecto Ubilla, os diretores da equipe de Melo ouviram o valor das reformas: trezentos mil pesos uruguaios, cerca de trinta mil reais; o suficiente para o presidente do clube declarar que receber o Peñarol no município era de fato impossível. Entre as exigências para habilitar o estádio, estava incluído até mesmo o transporte dos cavalos crioulos utilizados pela polícia montada de Montevidéu; os equinos do interior não serviriam. Durante as negociações, cogitou-se até realizar o jogo apenas com a parcialidade local nas tribunas – para tanto, um pedágio impediria a chegada de torcedores sem ingresso a Melo nas horas anteriores ao jogo. Passaram-se os dias e as reformas do Arquitecto Ubilla surpreenderam os dirigentes; o investimento do Cerro Largou convenceu o governo e a Associación Uruguaya de Fútbol de que era possível jogar futebol normalmente por ali, inclusive com as duas torcidas presentes. Outra tarde de domingo, tanto tempo depois, voltou a mobilizar a cidade e deixar notar aquela “alegria sem necessidade de explicação” que Aldyr havia descrito.

Melo viveu uma tarde ensolarada e de alívio; na véspera, uma tormenta havia assustado todo o país e comprometido o estado do gramado. Se a chuva persistisse no domingo, era improvável que a partida fosse realizada. O trio de arbitragem ponderou se não haveria barro e poças demais ali para a prática do futebol. Então, valendo-se de um improviso dramático para que todo o esforço prévio não atolasse na lama do Estádio Municipal, funcionários secaram a parte mais prejudicada do campo com colchões velhos. O árbitro não ousou contestar. Em campo, depois de um zero a zero, foi possível perceber certas lamúrias do Peñarol sobre a grama alagada e alguma indignação dos arachanes, como são chamados os nascidos no departamento, com a arbitragem que anulou um gol e ainda deixou de assinalar um pênalti para os locais. Apesar das queixas tão comuns ao futebol, havia uma satisfação indisfarçável nas arquibancadas. A imprensa local falou em “dia histórico” e em Montevidéu se comentou sobre o bom nível da equipe azul e branca. Felizes, aliás, estavam os católicos e os ateus que lotaram o estádio local. Ao fim de tudo – tempo semelhante ao que João Paulo II passou na cidade – numerosos aplausos. Deve ter sido lindo de ver, porque Melo era uma festa.

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Futebol e Literatura – Jorge Luis Borges

Publicado em Sem categoria por iurimuller em 5 de abril de 2012

20.08.2011

“Las calles de Buenos Aires
ya son mi entraña
No las ávidas calles
incómodas de turba y de ajetreo,
sino las calles desganadas del barrio
casi invisibles de habituales,
enternecidas de penumbra y de acaso”
“Las calles”, Jorge Luis Borges

As ruas que o escritor, ensaísta, poeta e tradutor argentino Jorge Luis Borges acende no poema de abertura do livro “Fervor de Buenos Aires” (1923) contrastam com a tendência de uma cidade orgulhosa do movimento do seu centro e do intenso ir e vir das avenidas. Buenos Aires, já a metrópole de grandes edifícios que atraía os olhares do continente, era vista de outra forma por Borges, como o próprio escritor conta no prólogo da edição de 1969 do mesmo livro: “eu, por exemplo, propus-me demasiados fins: (…) cantar uma Buenos Aires de casas baixas e, pelos lados do poente ou do sul, de quintas gradeadas”. A capital, tão distinta em seus bairros, já percebia, justamente no arrabalde, a consolidação de um fenômeno que, por inteira falta de identificação, sempre passou apenas ao lado de Jorge Luis Borges.

Os anos 1920 foram os últimos de futebol amador na Argentina; até então, formavam a primeira divisão apenas equipes da capital, da Grande Buenos Aires e de La Plata, descontando raras aparições de equipes do interior. Portanto, o torneio era disputado quase que inteiramente nos bairros. Por todos os lados, em Villa Crespo, La Quema, Villa Luro, ou em rápidas viagens a Quilmes e Avellaneda, os hoje consolidados e tradicionais clubes argentinos representavam os habitantes de cada região. San Lorenzo e Boca Juniors, por exemplo, fincaram as suas raízes em Boedo e La Boca, respectivamente, e acompanharam o crescimento e o cotidiano do bairro. Nas ruas de Jorge Luis Borges, por entre “as casas baixas e as quintas gradeadas”, se erguia também o futebol argentino.

O passar das décadas não alterou em nada a relação de Borges com o futebol portenho – que sempre esteve próxima do desprezo, mas não da indiferença. Nenhum traço do esporte soube agradar o escritor: nem a estética (“onze jogadores contra outros onze correndo atrás de uma bola não são especialmente bonitos”), o fervor das tribunas (“o futebol é popular porque a estupidez é popular”) e tampouco o sentimento nacionalista que o jogo pode provocar (“o futebol desperta as piores paixões”). Estaria inclusive abaixo das rinhas de galo – “ideais para os míopes” e, evidentemente, do xadrez – “o homem deixou de jogar xadrez e passou a jogar futebol. É um símbolo da degradação social”. Referência cultural do poeta, até mesmo a imagem da Inglaterra esteve arranhada; inventar o futebol teria sido um dos maiores crimes dos ingleses.

Até então, sempre entre a provocação e a raiva, o posicionamento do escritor se limitava às ideias e declarações. Quando a Argentina recebeu a Copa do Mundo em 1978, entretanto, Borges encontrou um sutil artifício de ignorar o jogo de forma pública. Conta Eduardo Galeano que o escritor ditou uma conferência sobre o tema da imortalidade no exato instante em que a seleção argentina inaugurava a sua participação no Mundial, no dia dois de junho. A verdade é que o panorama da época era inteiramente distinto – muitos dos intelectuais argentinos foram contra a realização do Mundial em tempos de ditadura; a poucos metros do Estádio Monumental de Núñez, por exemplo, situava-se a Escuela Mecánica de la Armada (ESMA), um dos centros de tortura e detenção mantidos pelos militares.

Pode-se supor que a distância entre Borges e o futebol tenha resultado em uma natural ausência do tema na produção literária do escritor. É evidente que o esporte não foi um dos grandes assuntos da sua obra; o contrário seria de uma incoerência que nunca encontraremos em seus escritos. Não deixa de ser surpreendente, portanto, que exista um conto de Jorge Luis Borges que trate o futebol como tema central. A bem da verdade, não exatamente de Jorge Luis Borges – trata-se de um conto de Bustos-Domecq, autor fictício criado por Borges e Adolfo Bioy Casares para assinar os textos feitos a quatro mãos. Não se trata da história dos cinco grandes times argentinos ou da melancolia de um centroavante portenho sem gols: no conto “Esse est percipi”, Borges e Bioy versam sobre a farsa que esfarela o futebol moderno no país.

A narrativa inicia com uma curiosa constatação: “Viejo turista de la zona de Núñez y aledaños, no dejé de notar que venía faltando en su lugar de siempre el monumental estadio de River.” A partir daí, o personagem vaga em busca de explicações para os estranhos acontecimentos – que serão justificados por um certo Tulio Savastano, então presidente do clube Abasto Juniors. Um par de questionamentos basta para que se entenda as modificações do futebol moderno, drasticamente alterado pelas transmissões televisivas e pela publicidade. Sem maiores delongas, o senhor Savastano informa, para a surpresa do seu interlocutor, que “no hay scores ni cuadros ni partidos. Los estadios ya son demoliciones que se caen a pedazos. Hoy todo pasa en la televisión y en la radio. La falsa excitación de los locutores nunca lo llevó a pensar que todo es patraña? El último partido de fútbol se jugó en esta capital el día 24 de junio del 1937”. De modo que o único relato literário de Borges sobre o futebol é justamente um relato crítico.

A idolatria argentina por Borges, seus livros e sua vida levam a amenizar inclusive as opiniões mais polêmicas do escritor. Mesmo os muitos apaixonados pelo futebol argentino talvez relevem o que disse e reiterou o escritor sobre o esporte levado à flor da pele na capital – há tentativas até de escolher uma possível equipe para “Georgie”, como era conhecido pelos amigos mais próximos. Consta que, em entrevista para o locutor Antonio Carrizo, Borges teria recordado a época em que trabalhou na biblioteca municipal Miguel Cané, em Boedo, entre 1937 e 1946. Eram tempos de ardente devoção futebolística no bairro – naqueles anos, o San Lorenzo erguia os primeiros torneios nacionais da sua história. Bastou um diálogo despretensioso, uma declaração inocente e já estava. Até Borges era “Cuervo”:

“Sempre me diziam: ‘de que quadro você é?’ ‘Como de que quadro, o que isso quer dizer?’ Logo me explicaram que um quadro era um clube de futebol; que em Buenos Aires havia muitos quadros, que as pessoas simpatizavam com um ou com outro, e que ali todos eram do San Lorenzo. ‘Bom, agora que me explicaram eu também serei, desde que não me façam ir ao futebol”.

http://sul21.com.br/jornal/2011/08/jorge-luis-borges/

Futebol e Literatura – Mario Benedetti

Publicado em Sem categoria por iurimuller em 5 de abril de 2012

06.08.2011

“Para los de abajo en tabla, el estadio siempre es el enemigo: miles y miles de voces que los acosan, los persiguen, los hunden, porque generalmente el que juega aquí, el permanente locatario, es uno de los Grandes, y los de abajo sólo van al estadio cuando les toca enfrentarlos, y en esas ocasiones apenas si acarrean, en el mejor de los casos, algunos cientos de fanáticos del barrio, que, aunque se desgañitan y agitan como locos su única y gastada bandera, em realidade no cuentan, es imposible que tapen, desde su islote de alaridos, el gran rugido de la hinchada mayor”. Mario Benedetti, “El Césped”.

- No sé si el fútbol se va a recuperar, no tengo demasiadas esperanzas, pero Uruguay se recuperará.

A resposta acima pertence ao escritor uruguaio Mario Benedetti (1920-2009) e aparece em uma entrevista para o jornal argentino Página 12, em 2006. O futebol entrou na conversa não por iniciativa do jornalista, e sim pela vontade do próprio escritor. Pouco antes, foi convidado a responder sobre quais acontecimentos da sua vida (Benedetti já contava então com 86 anos) teriam sido inesquecíveis: “toda mi relación con Luz (sua esposa, falecida poucos meses antes da entrevista), desde la infancia. Y conocer a Fidel, también es inolvidable. Y el Maracaná. El fútbol fue muy importante, nos dio alegría. Y si ahora se puede recuperar la alegría, no es por el fútbol, es por la política. La gente tiene esperanzas en Tabaré Vázquez y son fundadas”.

Passaram-se cinco anos e, do panorama uruguaio observado pelo autor de “A Trégua”, muito mudou. Em 2006, Tabaré Vázquez, o primeiro presidente fora dos partidos Nacional e Colorado eleito pelos uruguaios, apenas iniciava o seu mandato. A Frente Amplia, depois de décadas de oposição, se tornava protagonista da política uruguaia – com o apoio de muitos dos intelectuais do Uruguai, como foi o caso de Mario Benedetti. Há cinco anos, o futebol da República Oriental também vivia outra realidade. A seleção nacional nem participou da Copa do Mundo da Alemanha e os clubes sofriam para passar da primeira fase da Libertadores da América.

Mario Benedetti foi um confesso torcedor do Nacional e da Celeste, mas sensível a ponto de lembrar tanto do sofrimento do goleiro brasileiro Barbosa como da festa vivida em solo uruguaio, ao destacar dois pontos sobre o que foi o Maracanazzo. A recente evolução do futebol oriental não pôde ser vista pelo escritor nascido em Paso de los Toros – foi em 2009, ano do seu falecimento, que o Nacional alcançou a semifinal da Libertadores depois de de 21 anos; feito que desencadearia outras grandes campanhas, como o quarto lugar do Uruguai na Copa do Mundo, a classificação da Celeste à Olimpíada depois de 84 anos, a presença do Peñarol na última final continental e, principalmente, o recente título da Copa América. A Frente Amplia, por sua vez, alcançou o segundo mandato com José Mujica.

Goleiro nos jogos da infância – “por vocación, o tal vez porque era asmático” –, Benedetti lembrava ter sido literalmente quase arrastado pela multidão da sua própria torcida na saída de um clássico no Estádio Centenário, quando ainda ia ao estádio na companhia do pai. Mais do que apreciar o futebol e se fazer presente nas arquibancadas, Benedetti mostrou entender do assunto justamente quando transformou os acontecimentos de cada domingo em literatura. O conto “Puntero Izquierdo”, de 1954, é tido como um dos primeiros relatos em língua espanhola que abordam o futebol como tema central. E ao preencher suas páginas com acontecimentos de uma partida, Benedetti não camuflou ou idealizou o jogo – em “Puntero Izquierdo”, a narrativa se passa nos arrabaldes de Montevidéu, onde qualquer coisa pode acontecer nos potreros e no tempo em que os jogadores ainda tinham ligação com as fábricas em que trabalhavam.

Com a típica linguagem que ouvimos no futebol amador, o disputado nos bairros, Mario Benedetti conta como o suborno, a violência e a ingenuidade de um ponteiro esquerdo acabam por decidir uma partida que decidiria o acesso nas divisões inferiores. Por fim herói da sua parcialidade e gravemente agredido pelos que haviam negociado o resultado, o ponteiro ainda acaba demitido do seu emprego, já que o patrão descarta esperar pela recuperação. O conto, publicado em “Montevideanos”, talvez o primeiro sucesso de público e crítica da sua produção, se mistura com os demais textos do livro, relatos irônicos de personagens do cotidiano da capital uruguaia.

Escrito em 1990, 36 anos depois de “Puntero Izquierdo”, “Él césped” apresenta o futebol profissional de Montevidéu e os aspectos que diferenciam a capital de qualquer outra metrópole futebolística do mundo: a cidade sempre abrigou quase a totalidade das equipes da primeira divisão, conta com dezenas de pequenos estádios espalhados pelos seus bairros e, muito pela sua atmosfera provinciana, os jogadores acabam tendo um contato diferenciado entre si. Em “Él césped”, Benedetti narra situações menores, quase imperceptíveis para os olhares desatentos, mas que fazem parte do dia a dia do futebol – o vento que espalha os restos de cada partida em um estádio já vazio, os valores que levam as pequenas torcidas a desafiarem os grandes no Estádio Centenário, a sombra dos nomes de um passado vitorioso (Obdulio Varela, José Nazassi, Atílio García) sobre um futebol já decadente.

Em outros contos da sua larga obra, Benedetti fez do futebol um elemento para compor a história, criar uma anedota ou aproximar dois personagens. No conto “Fim de semana”, é a paixão pelo Nacional que inicia a aceitação do filho pela nova mulher de seu pai; em “Cambalache”, um jogador de “um certo time do Rio da Prata”, em excursão pela Europa, canta o tango de Carlos Gardel que dá o título ao conto e não o hino do seu país. No romance “Andamios”, de passagens autobiográficas, um uruguaio exilado na Europa admite que seja normal começar a torcer por qualquer equipe em que atue um uruguaio (seja o Zaragoza, o Albacete, o Tenerife), já que ninguém informa como anda o Peñarol, o Nacional, o Wanderers ou o Rampla Juniors. Em mais de 50 anos de literatura, Mario Benedetti contou, em poemas, ensaios, contos e romances, não um Uruguai heroico, das façanhas e dos caudilhos, mas o dos montevideanos de carne e osso, os dos bares, cafés e estádios de futebol.

http://sul21.com.br/jornal/2011/08/mario-benedetti/

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